quarta-feira, 18 de novembro de 2009

estamos aqui




estamos aqui

de perna pro ar

e cabeça na mais alta nuvem

que beija o pico do pico

esperando

o passageiro do trem

chegar ao sol raiar

empunhando uma bandeira

pra enfeitar a minha vila

que tem telhados e caminhos

tem copas de árvores

e ninhos de passarinhos

e no passeio da fumaça

no desenho cheio de graça

sinto despertar as cores do cio

é capaz que hoje eu me deite

no teu colo macio



rita

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

fazer nada


fazer nada é

namorar a árvore que encontrei no caminho

ouvir o cantar do passarinho

assoviar bem de mansinho

olhar os pingos que escorrem na vidraça

beirar a água estando descalça

sentir chegar a chuva e, então, louvá-la

observar formigas em sua jornada

cheirar a flor e dar uma risada

colocar conchas num balde de praia

balançar a rede na preguiça de uma tarde

ficar de pijama sem fazer alarde

contar estórias que não são de verdade

acompanhar o voar das borboletas

abrir e fechar caixinhas e gavetas

passear de carona em uma lambreta

conversar com as ondas do mar

esperar a estrela cadente passar

dizer eu te amo, assim, sem pensar.



rita

sábado, 24 de outubro de 2009

Esta frase é de G.Rosa: (in Primeiras Estórias, Benfazeja)

"O entressentir-se entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo."

Guimarães Rosa


Azul

Azul que me surpreende agora
Trazendo um perfume doce de aurora

Azul que profana meu delírio neste instante
Tornando meu corpo do teu distante

Azul que se revela na brisa deste momento
Levando toda a certeza de um pensamento

Azul que insiste em dilatar o presente
Marcando penitências de um coração que sente

Azul que me estanca no quê de um segundo
Liberando sonhos que não são deste mundo

Azul que me leva em deleite ao desafio
Deslizando lágrimas a correr como rio

Rita

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

ciranda


E neste móbile lunar
conto luas.
Luas em ciranda.
Uma pequena dança
para celebrar este presente,
a sua poesia,

que releva o que passou
e benvinda o que virá!

rita

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

João Cabral de Melo Neto

O artista inconfessável

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.


video/sobre/joão/cabral

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Há aquelas
que aguardam
um príncipe
que as salvem
do dragão.
Quanto a mim,
aguardo
um dragão
que me salve
do príncipe.

rita

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

sem ser


dia besta
vida besta
sem sentido
silêncio
tem dia que nem o eco se apresenta
até a sombra não se alonga
onde é que termina
onde é que começa
o daqui a pouco do nada
a vontade de nem chegar
nem partir
queria rir de bobeira
chorar sem razão
chupar um limão com sal
pra provar o que espreme
e o que é que geme
deitar no chão
e esquecer de ser

rita

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Mas é a cara
que mascara
o coração.
A mais cara
máscara
é de ocasião.
Mascar a goma
ou cair em tentação?
Vou mais é cantar
para a trouxa
não vir ao chão.

rita

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Receita de Arroz


Para cozinhar é preciso muita intuição.
Porque às vezes a receita surge na hora que a gente tá fazendo.
É como um fluxo.
A gente vai fazendo e sabendo, sabendo e fazendo.
Use tuas mãos, teus ouvidos, teu olfato, teus olhos e paladar.
Quer dizer, todos os sentidos.
Para fazer arroz à moda da casa é o seguinte:
Lave o arroz e deixe escorrer.
Quando estiver escorridinho, pegue a panela.
Coloque óleo, deixe esquentar um pouco.
Junte cebola picada, ou alho, ou não coloque nada, só óleo mesmo.
Se colocar cebola, deixe que ela fique dourada.
Se for alho, ele fica também douradinho.
Depois, despeje o arroz e deixe fritar, mexendo com uma colher.
A hora que começar a estalar um pouquinho, quando já está querendo grudar no fundo da panela, coloque o sal e coloque a água.
Pode ser fria.
Se for arroz branco, a água deve ficar dois dedos acima do nível do arroz, se for arroz integral tem que chegar a 3 dedos e meio a quatro.
Pode medir com o cabo da colher.
Quando a água estiver fervendo, abaixe o fogo e tampe a panela.
Não tampe tudo.
Deixe uma fresta para sair o vapor.
A hora que a água secar, vai fazer um barulho de estaladinho, desligue e tampe a panela.
Meio complicado esse meu arroz?
O mais importante é fazer com muito amor.
Porque sentimento e humor são verdadeiros temperos na arte culinária.
rita